ABATE DE MILHARES DE ÁRVORES ! Ameaça ambiental e paisagística

QSINTRA enviou a 9 de Fevereiro 2017o seguinte apelo à Presidência da República, Ministério do Ambiente, Ministério da Cultura, Grupos Parlamentares, Presidência da Câmara Municipal de Sintra, Vereadores da CMS, ICNF e PSML:

“Estando iminente um grave atentado não só ambiental como paisagístico na serra de Sintra, vimos solicitar a V.Exa. medidas urgentes que preservem uma das principais componentes da Paisagem Cultural de Sintra classificada pela UNESCO em 1995.

Trata-se do abate de milhares de árvores, sobretudo cedros e pinheiros, ao longo das estradas Malveira – Lagoa Azul e Malveira – Capuchos, que desfigurará irremediavelmente aqueles caminhos icnográficos da serra de Sintra.

Já no ano passado, em Março, o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) marcou milhares de árvores para serem cortadas nas mesmas zonas, com o argumento de melhorar a segurança rodoviária e combater o aumento de espécies invasoras.

Na altura, o assunto foi amplamente divulgado pelos media e a mobilização de cidadãos, a que se juntaram associações ambientalistas e partidos políticos, acabou por provar que os argumentos do ICNF não eram válidos, não havendo nenhum estudo que demonstrasse a deficiente situação fitossanitária das árvores, nem o perigo de queda. O corte foi interrompido e as 5 300 pessoas que assinaram a petição pública contra este atentado respiraram de alívio. VEJA http://peticaopublica.com/pview.aspx?pi=PT85096

Agora, há cerca de um mês, observámos novas marcas, praticamente nas mesmas árvores que em 2017. Algumas das pessoas que confrontaram o ICNF há um ano, voltaram a questioná-lo sobre esta nova marcação, sendo agora a lei para prevenção de incêndios o argumento apresentado pelo Instituto para devastar milhares de árvores ao longo das referidas estradas.

Contactámos engenheiros florestais e especialistas em incêndios florestais e as opiniões são unânimes:

– Como prevenção de incêndios, o que é urgente fazer na serra de Sintra é a limpeza, a compartimentação e a gestão da floresta. E o que se verifica é que grande parte da floresta está ao abandono há várias décadas, sem um plano de gestão.
– O corte massivo destas árvores não diminuirá o risco de incêndios, pelo contrário poderá aumentá-lo, secando os solos e abrindo caminho para espécies invasoras; a gestão de solos deve fazer-se por pequenos talhões e não através de áreas desta dimensão.

– Está provado, como se viu nos trágicos incêndios que destruíram em 2017 vastas áreas do território nacional, que o fogo atravessa auto-estradas, pelo que cortar estas árvores centenárias e de grande beleza ao longo das estradas da serra de Sintra só pode ter o objectivo de negócio, não compaginável com a defesa da paisagem e do ambiente de uma zona classificada como Património Mundial da Humanidade;

– A uma floresta classificada pela UNESCO não podem ser aplicadas as mesmas regras que podem ser válidas em qualquer outra área. Um lugar de tal importância histórica e diversidade patrimonial precisa de atenção e cuidados específicos.

É gritante a necessidade e urgência de se definirem regulamentos específicos que protejam e preservem o património natural, a par do património construído, sendo essa definição requerida pela UNESCO desde a classificação da Paisagem Cultural de Sintra.

Acreditamos que temos o direito de exigir a preservação deste património e mobilizaremos a opinião pública por todos os meios a que temos acesso.

Desde já, apelamos para uma visão do Estado clara, rigorosa e consistente e para uma intervenção urgente das instâncias superiores que trave a actual estratégia do ICNF.

Ficamos na expectativa que V. Exa., oiça este apelo e estamos à inteira disposição para lhe transmitir pessoalmente as nossas preocupações.”

QSINTRA-Em defesa de um sítio único

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A AMEAÇA DO ANO PASSADO
De seguida, algumas das declarações que foram tornadas públicas no ano passado sobre este tema do abate de árvores em Sintra e que são por si só elucidativas:

PRESIDENTE DA CÂMARA DE SINTRA (in Público, 30 Mar 2017)

“O problema das árvores está ligado à Paisagem Cultural da Humanidade. Nada se deve fazer que possa afectar as obrigações que temos em relação à UNESCO, nomeadamente quanto a árvores centenárias”, afirmou o presidente da autarquia, Basílio Horta (PS).

“Nós respeitamos as necessidades económicas do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, e das instituições, mas as necessidades económicas têm que se sujeitar a valores superiores, que neste caso é a paisagem da serra”, frisou Basílio Horta.
QUERCUS (in Diário de Notícias, 22 Mar 2017 e Publico, 23 Mar 2017)

“A Quercus acha que o corte deve ser cancelado e deve ser reavaliado, porque duvidamos muito que o corte incida unicamente sobre árvores doentes e em risco, porque temos informação de que não é assim e isso vai fomentar a proliferação de acácias invasoras”, afirmou à Lusa o presidente da Quercus, João Branco.

“Numa área natural e paisagística desta importância, que é uma área protegida, não se justifica este tipo de cortes de madeira para obtenção de rendimentos, uma vez que o principal uso não deve ser de uma floresta de produção, mas de conservação”, defendeu o engenheiro florestal.

“O ICNF tem de repensar as políticas florestais nas áreas que gere, porque, com as alterações climáticas, há muitas áreas que ainda estão a ser exploradas para produzir madeira, numa lógica puramente mercantilista, e a política tem de mudar, pela manutenção da paisagem e para que a floresta seja um sumidouro de carbono”.
ALAGAMARES (in Público, 23 Mar 2017):

A associação cultural Alagamares também se manifestou, em comunicado, “contra o abate de árvores em massa”, advogando que “não é só a situação fitossanitária que deve ser tida em conta, mas também o direito à imagem, que conforma a paisagem, e contou sobremaneira na classificação de Sintra como Paisagem Cultural” pela UNESCO.

FONTE DO ICNF NÃO IDENTIFICADA (in Diário de Notícias, 22 Mar 2017):

“As árvores não se encontram em fim de vida, nem em mau estado fitossanitário, nem em concorrência directa com as espécies autóctones, que escasseiam nas áreas a intervir”, contrapôs à Lusa uma fonte dos serviços do ICNF, que pediu para não ser identificada.

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