From: “QSintra” <qsintra@mail.com>
Date: 10 July 2026
To: Camara SINTRA/Fundação Aga Khan
Subject: Parque Ecológico Adraga-Praia Grande
Exmos. Senhores,
Em Abril visitámos a primeira fase do “Parque Ecológico Adraga-Praia Grande”, numa visita organizada pela Fundação Aga Khan, com a participação de técnicos das entidades públicas e privadas envolvidas no projecto (CMS, ICNF, NBI), acreditando os promotores que este venha a ser um projecto modelo de “restauro ecológico”.
Foram destacados os cuidados com que a obra tem sido conduzida no sentido do “restauro ecológico”: irradicaçāo de acácias e canavial, protecção das espécies autóctones e plantação de sobreiros e medronheiros.
Esta visita, que há muito solicitáramos e que agradecemos, permitiu responder a algumas preocupações sobre o impacto do projecto mas há questões que ficaram em aberto e sugestões que aqui retomamos.
Os objectivos de “restauro ecológico” convivem com uma forte promoção da visitação através de cerca de 3 kms de passadiços ao longo dos 20 hectares intervencionados nesta fase.
Os passadiços
Em termos paisagísticos, os passadiços impõem-se. O argumento que mais uma vez foi apresentado é que se destinam a evitar o pisoteio, mas fica a dúvida se não poderiam em parte ser substituídos por trilhos contidos (por cordas, por exemplo, como existe em pequenas partes do percurso) e bem assinalados.
Consideramos lamentável que o ponto de vista da arriba a partir da Praia Grande fique agora manchado pelo recorte dos passadiços e de um miradouro no extremo da falésia, numa cota mais elevada, o que cria uma ferida na paisagem e contrasta com o conceito de “restauro ecológico”. Parece-nos fundamental preservar o ponto de vista da arriba, retirando os troços de passadiços em causa, ou rebaixando o mesmo para a cota natural do terreno. Ficámos com a sensação que se a cota do mirante baixar 1 metro ou 1,5 metro continuará a ter a vista no mirante e da praia deixar-se-á de ver o mirante, uma pequena alteração com um resultado significativo na paisagem.
Manutenção e vigilância
Um ponto crítico, que apontamos desde que o projecto foi conhecido, incide sobre a manutenção e vigilância do parque, a cargo da CMS. E, neste caso, a tarefa será muito exigente, não só para ir contendo as espécies invasoras (já há canas a trespassarem os passadiços), mas também para controlar utilizações indevidas ou actos de vandalismo.
Foi-nos dito em Abril que o parque seria aberto ao público brevemente mas ao dia de hoje continua a ter acesso supostamente condicionado, apesar de já ser bastante utilizado.
Desconhecemos se existe um orçamento para as várias fases do projecto e qual o investimento necessário para a correcta manutenção do parque, estruturas de apoio, acções de sensibilização, recursos humanos e materiais afectos ao parque, etc.. Foi-nos explicado que a CMS equaciona ir buscar recursos financeiros aos utilizadores através de taxa de estacionamento automóvel, ainda por definir, e de venda de merchandising.
Segundo o biólogo responsável da NBI Paulo Pereira, um projecto de restauro ecológico deve ser visto com uma janela temporal de 10 anos. Este prazo ultrapassa, em larga medida, o actual mandato autárquico, pelo que nos parece essencial garantir a boa gestão e acompanhamento por esse período mínimo de dez anos, através de “um pacto de regime” que assegure a continuidade do projecto de restauro nas melhores condições.
Outras questões e sugestões
1. – Solicitamos confirmação quanto a estarem ou não a ser feitos controlos químicos (herbicidas ou outros) das espécies invasoras e em caso afirmativo com que produto e com que resultados.
2. – O envolvimento de voluntariado jovem na remoção de invasoras contribui para a sensibilização ambiental; sugerimos que estas acções sejam replicadas com outros segmentos da população.
3. – É importante definir qual a capacidade de carga a nível de acessos, ou seja, número total de visitantes/ dia, lotação máxima e gestão de picos de concentração, de forma a não haver multidões e existir sempre um usufruto de qualidade.
4. – As normais de acesso e usufruto devem estar visíveis, e deve ser proibido qualquer acesso de bicicleta, trotinete, skate, ou outro similar.
Deve ser proibido uso de colunas ou sistemas de som, assim como de realização de festas (aniversários, concertos, etc.).
5. – No início do percurso deve estar indicado o nível de perigosidade de incêndio rural, a proibição de qualquer tipo de lume, o apelo ao civismo quanto a lixo e o nível UV previsto, sensibilizando para a hidratação e proteção da pele. A sinalética deve ser a estritamente necessária para evitar poluição visual e sempre que possível usar símbolos.
6. – Não haverá para já instalações sanitárias que só estão previstas na fase 2 do projecto, a decorrer no próximo ano. Sugerimos que a água usada nestes wcs seja recolhida da chuva e que se aproveite para sensibilizar a população para a poupança de água e divulgar os ciclos de água.
7. – Cremos que se confundem os termos “usufruto de espaço natural” com “restauro ecológico” criando uma fusão de difícil assimilação. De facto, parece-nos que o recreio infantil poderá introduzir ruído numa visitação que se desejaria em comunhão com a natureza e com a devida tranquilidade acústica.
8. – Igualmente contraditório parece ser o destino final da biomassa retirada para queima, o que contribui para o lançamento de carbono na atmosfera. Deve ser equacionado outro uso sustentável para essa biomassa – se não a sua conversão em composto, outras formas alternativas de aproveitamento. Caso essa decisão de queima se mantenha, o carbono emitido deverá ser contabilizado e devidamente compensado. Gostaríamos ainda de questionar como é feita a contabilização da biomassa retirada, se existem as devidas guias de transporte/ aceitação na central de biomassa e para quem provém o lucro da venda da biomassa.
9. – Deve ser claro que os cães, sendo permitidos, têm de andar sempre à trela, como é obrigatório na via pública, e existirem bebedouros de água potável.
10. – Congratulamo-nos com o facto de tanto o estacionamento, como os passadiços não terem luz artificial, o que poderia impactar a fauna.
11. – Quanto ao parque de estacionamento, o facto de não ter marcações pode encorajar estacionamentos abusivos e gerar alguma anarquia.
Fase II
Foi revelado durante a visita que já existe o compromisso de financiamento da Fase II pela Fundação Aga Khan, facto sobre o qual não houve informação pública prévia.
Solicitamos a disponibilização da seguinte documentação:
– Protocolo estabelecido
– Projecto da Fase II
– Projecto da Fase I com as alterações, entretanto introduzidas.
– Outra documentação de suporte, como pareceres técnicos, da APA, da CCDR-LVT, do ICNF.
Ficando a aguardar oportunidade de recebermos os esclarecimentos aqui solicitados,
Melhores cumprimentos,
A Direcção